sexta-feira, 24 de abril de 2009

Revisão

Revisei grande parte dos meus textos, corrigindo erros ortográficos e mudando algumas "sutilezas". Nada radical foi alterado, a estrutura está a mesma. Já tinha lido várias vezes os textos, mas parece que quanto mais você lê, mais gostaria de corrigir. Desculpem por erros encontrados, espero que tudo (ou a maior parte) esteja correto.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Fotos

Eu fotografava: imortalizava fragmentos daquela noite escura e úmida. Estava frio, há pouco havia chovido; o asfalto molhado refletia em pontos brilhantes a luz artificial dos postes, enquanto a luz natural da lua era escondida por altos prédios que entornavam a rua. A fumaça subia dos bueiros e desaparecia no gélido ar, às vezes captada por minhas lentes.
Enquanto eu caminhava, solitário, meu sobretudo esvoaçava com as rajadas de vento. Era difícil acender o cigarro; para piorar tudo meu isqueiro ainda falhava. Conforme a noite avançava, o número de pessoas diminuía: já não era mais visto aquele tipo com maleta, cansado do trabalho, ou até mesmo mulheres carregadas de compras voltando para casa. Os carros também desapareciam lentamente na rua que era uma linha reta, aparentemente sem fim.
Era delicioso poder andar sem rumo, observar os seres que constituem o grande sistema caótico denominado sociedade. Analisar as diversas personalidades, atitudes, principalmente os olhares: enquadrar, focalizar e memorizar eternamente, com o simples aperto de um botão.
O tempo passou rapidamente, e já eram 3 da manhã quando avistei um letreiro em neon verde de uma lanchonete aberta 24 horas. Aproximei-me, e entrei: o ar era pesado, carregado de gordura assim como as hélices dos ventiladores que rodavam lentamente. O lugar estava iluminado por fortes luzes brancas, tornadas mais intensas pela cor clara dos pisos. As mesas, encostadas nas paredes e fixadas no chão, eram de um brilhante aço inoxidável. A atmosfera no geral não era muito agradável, parecia mais um matadouro. Não fazia diferença... Eu havia entrado apenas para tomar o cappuccino que acalentava minhas madrugadas.
Atrás do balcão, uma mulher lavava os pratos. Seu avental branco já estava amarelado; o cabelo loiro, desgrenhado. Suas olheiras demonstravam cansaço; poderia muito bem ser uma pobre quarentona fracassada, daquelas que moram em um apartamento alugado caindo aos pedaços com filhos para cuidar. Andei até o balcão e lá me sentei. Guardei minha câmera na bolsa, cuidadosamente, e ouvi:
- Posso ajudar? - disse a quarentona.
- Poderia me ver um cappuccino, por favor? - perguntei gentilmente.
Logo eu estava tomando meu café, e como sempre, observando. No geral, a lanchonete estava vazia como todo o resto da rua e da cidade, a não ser por um jovem casal de namorados sentados em uma mesa à esquerda, e um mendigo encostado em um canto, ao fundo. Os jovens conversavam alegremente, tomando milk-shakes e comendo hambúrgueres; a moça vestia um casaco de um time de futebol, provavelmente de seu companheiro. O mendigo dormia; estava sujo, com as roupas em frangalhos e os cabelos despenteados.
- Há quanto tempo aquele mendigo está ali? - Perguntei para a garçonete.
- Desde que chegou, há cerca de duas horas. Pediu comida para aqueles jovens que negaram. Fico com pena, mas meu emprego está em risco, não posso perdê-lo. - Confessou a empregada.
- Faça um hambúrguer e um suco pra ele, eu pago. - Afirmei.
Após alguns minutos, a garçonete acordou o mendigo e ofereceu-lhe o lanche. Ele comia rapidamente, sem se preocupar com boas maneiras ou com sujeira. Mastigava e engolia como um animal esfomeado, chamando a atenção dos adolescentes que negaram tal refeição. Aproveitei essa doce cena: tirei rapidamente a câmera da bolsa e fotografei, sempre discreto. Após terminar, o pobre homem voltou a recostar-se na parede, e lá ficou com os olhos fechados. A moça-do-casaco-de-futebol o olhava enojada, tratando-o mentalmente de uma forma inumana. Desviei o olhar e acendi meu cigarro; havia conseguido fazer funcionar o velho isqueiro.
Os jovens terminaram de comer e se levantaram; deixaram o dinheiro na mesa e foram até a rua, onde estava estacionado o carro. Acelerando de forma exibida, seguiram rapidamente por aquele caminho sem fim, deixando simplesmente de existir do "mini cosmo" da lanchonete.
Após terminar o café e o cigarro, também me levantei; paguei minha conta e a do mendigo, agradeci a atendente e a gratifiquei com uma gorjeta - certamente serviria para comprar algo para seus possíveis filhos. Dirigi-me até o pobre, tirei meu casaco e deixei ao seu lado: suas roupas eram finas, o sobretudo ajudaria a mantê-lo quente. Depois de uma última olhada no lugar, juntei minhas coisas e saí.
Minha noite estava ganha, tinha conseguido imagens que demonstravam o instinto humano. Além disso, consegui imagens que demonstravam a escória humana. É interessante como em simples olhares, os sentimentos revelam-se profundamente com a história de uns, e do egoísmo de outros...

sábado, 11 de abril de 2009

"Eu? Não jogue a culpa em mim! Ontem quando o abajur foi desligado, senti-me sozinho. Mas logo o dia chegou e não precisei mais dessas luzes artificiais... Quando eu caminhar na rua, pensarei. Pouco, digamos; quanto menos melhor. Contradição? Não, não... Só estou com medo do calor do Sol queimar-me sem eu ter a chance de perceber - tudo tem seu lado ruim.
Olha, melhor eu preparar logo esse café da manhã, preciso me alimentar de alguma forma, ao menos isso. Só que antes, poderia me ensinar a cozinhar? Droga, não me dou bem com essas coisas..."

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O que é justiça para você?


Eu ri. Gargalhei insanamente por incontáveis instantes de prazer e dor. Lá estava ela: seu corpo flácido, suavemente deitado na cama; os braços pendiam, os olhos verdes flutuavam nas órbitas, afogados por seu doce sangue que escorria também de seus lábios. Continuava linda; o tom de pele apenas mais alvo do que de costume. Seus loiros cabelos eram perfeitos: desciam ondulados por seus ombros de textura sedosa. Contudo, a beleza não é eterna, e logo a sua iria esvair-se tão rapidamente quanto à consideração por mim.
Era para esquecer? Pois bem. Deixei de dar valor, como assim foi feito comigo; a diferença é que para mim as coisas sem valor são sinônimas de mortas... Agora os vermes iriam devorá-la, tornariam sua carne fétida e pútrida, desfazendo-a lentamente, semelhante às lembranças minhas que agora se desfaziam.
Era ótimo; o gosto da vingança, tão sublime, subia e satisfazia-me. Eu poderia ter feito mais... Tê-la feito sofrer como sofri, sem chances de defesa, de escolha. Mas sua inexistência já era de bom grado.
Eu caminhava ao redor de seu corpo e a admirava, por mais uma vez, e pela última ela seria minha... Toquei suavemente sua gélida pele, fechei as pálpebras dos olhos que tanto amei e limpei sua boca já arroxeada. Suas vestes eram brancas; um comprido vestido de renda, agora sem qualquer utilidade.
Não era necessário enterro; meu sentimento não havia sido dignamente enterrado. O corpo que definhasse por ali mesmo...
O conceito de justiça tinha sido drasticamente alterado, ou melhor, inadmissivelmente alterado. Machucar alguém e viver sem qualquer remorso, sem dar tempo de cura para as feridas, era cruel. Fui cruel ao matá-la, entretanto fui justo.
Dessa vez, nada de equilibrar-me no limite da loucura; ou enlouquecia de vez, ou melhorava. Estava feito. Não me preocupei com pesadelos, pois os tinha há tempos. Acostumei-me às tormentas noturnas como alguém se acostuma à água fria após algum tempo em contato com ela - e que morre de hipotermia...
Era melhor assim; desejá-la e ter a absoluta certeza de que não é possível tê-la mais. Lembrar de sua vida e agora saber que está morta, que não mais sonha e sente...
Deixei a sala. Como último adeus, encostei meus lábios em sua testa e senti frio. O frio da eterna solidão; aquele que só pode ser sentido quando não se vive mais, o frio que também sempre senti.
Caminhei vagarosamente até a porta. Nesse curto percurso, deparei-me com uma incrível certeza: a de que eu voltaria, incessantemente, todos os dias, para vê-la e lamentar a saudade. Então busquei um galão de gasolina que sobrava no carro, embebi seu corpo; encharquei seu lindo vestido e seus cabelos. Com o cigarro que em minha boca estava, ateei fogo. Peguei o que me matava, e usei para acabar com o que já tinha me matado. Suas cinzas sumiriam no ar, junto com a fumaça do fogo que um dia foi amor...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Nanquim


Ahn, só para compartilhar o desastre de minha brincadeira com nanquim. Um pincel decente faz falta... Mas pelo menos o tempo passou e me distraí, certo?