Eu fotografava: imortalizava fragmentos daquela noite escura e úmida. Estava frio, há pouco havia chovido; o asfalto molhado refletia em pontos brilhantes a luz artificial dos postes, enquanto a luz natural da lua era escondida por altos prédios que entornavam a rua. A fumaça subia dos bueiros e desaparecia no gélido ar, às vezes captada por minhas lentes.
Enquanto eu caminhava, solitário, meu sobretudo esvoaçava com as rajadas de vento. Era difícil acender o cigarro; para piorar tudo meu isqueiro ainda falhava. Conforme a noite avançava, o número de pessoas diminuía: já não era mais visto aquele tipo com maleta, cansado do trabalho, ou até mesmo mulheres carregadas de compras voltando para casa. Os carros também desapareciam lentamente na rua que era uma linha reta, aparentemente sem fim.
Era delicioso poder andar sem rumo, observar os seres que constituem o grande sistema caótico denominado sociedade. Analisar as diversas personalidades, atitudes, principalmente os olhares: enquadrar, focalizar e memorizar eternamente, com o simples aperto de um botão.
O tempo passou rapidamente, e já eram 3 da manhã quando avistei um letreiro em neon verde de uma lanchonete aberta 24 horas. Aproximei-me, e entrei: o ar era pesado, carregado de gordura assim como as hélices dos ventiladores que rodavam lentamente. O lugar estava iluminado por fortes luzes brancas, tornadas mais intensas pela cor clara dos pisos. As mesas, encostadas nas paredes e fixadas no chão, eram de um brilhante aço inoxidável. A atmosfera no geral não era muito agradável, parecia mais um matadouro. Não fazia diferença... Eu havia entrado apenas para tomar o cappuccino que acalentava minhas madrugadas.
Atrás do balcão, uma mulher lavava os pratos. Seu avental branco já estava amarelado; o cabelo loiro, desgrenhado. Suas olheiras demonstravam cansaço; poderia muito bem ser uma pobre quarentona fracassada, daquelas que moram em um apartamento alugado caindo aos pedaços com filhos para cuidar. Andei até o balcão e lá me sentei. Guardei minha câmera na bolsa, cuidadosamente, e ouvi:
- Posso ajudar? - disse a quarentona.
- Poderia me ver um cappuccino, por favor? - perguntei gentilmente.
Logo eu estava tomando meu café, e como sempre, observando. No geral, a lanchonete estava vazia como todo o resto da rua e da cidade, a não ser por um jovem casal de namorados sentados em uma mesa à esquerda, e um mendigo encostado em um canto, ao fundo. Os jovens conversavam alegremente, tomando milk-shakes e comendo hambúrgueres; a moça vestia um casaco de um time de futebol, provavelmente de seu companheiro. O mendigo dormia; estava sujo, com as roupas em frangalhos e os cabelos despenteados.
- Há quanto tempo aquele mendigo está ali? - Perguntei para a garçonete.
- Desde que chegou, há cerca de duas horas. Pediu comida para aqueles jovens que negaram. Fico com pena, mas meu emprego está em risco, não posso perdê-lo. - Confessou a empregada.
- Faça um hambúrguer e um suco pra ele, eu pago. - Afirmei.
Após alguns minutos, a garçonete acordou o mendigo e ofereceu-lhe o lanche. Ele comia rapidamente, sem se preocupar com boas maneiras ou com sujeira. Mastigava e engolia como um animal esfomeado, chamando a atenção dos adolescentes que negaram tal refeição. Aproveitei essa doce cena: tirei rapidamente a câmera da bolsa e fotografei, sempre discreto. Após terminar, o pobre homem voltou a recostar-se na parede, e lá ficou com os olhos fechados. A moça-do-casaco-de-futebol o olhava enojada, tratando-o mentalmente de uma forma inumana. Desviei o olhar e acendi meu cigarro; havia conseguido fazer funcionar o velho isqueiro.
Os jovens terminaram de comer e se levantaram; deixaram o dinheiro na mesa e foram até a rua, onde estava estacionado o carro. Acelerando de forma exibida, seguiram rapidamente por aquele caminho sem fim, deixando simplesmente de existir do "mini cosmo" da lanchonete.
Após terminar o café e o cigarro, também me levantei; paguei minha conta e a do mendigo, agradeci a atendente e a gratifiquei com uma gorjeta - certamente serviria para comprar algo para seus possíveis filhos. Dirigi-me até o pobre, tirei meu casaco e deixei ao seu lado: suas roupas eram finas, o sobretudo ajudaria a mantê-lo quente. Depois de uma última olhada no lugar, juntei minhas coisas e saí.
Minha noite estava ganha, tinha conseguido imagens que demonstravam o instinto humano. Além disso, consegui imagens que demonstravam a escória humana. É interessante como em simples olhares, os sentimentos revelam-se profundamente com a história de uns, e do egoísmo de outros...