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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

Tão pouca fé?


I hear the angels calling
And the rain starts falling...

Anjos? Que vão para o inferno, pois lá é o lugar de todos! Paraíso não existe, é idealização. Vivemos em um relógio de fogo, onde a vida chama-se tempo e o tempo, vida... Onde cada segundo é o estalar do chicote em nossas costas, dor e pesar de um passado perdido e de um futuro inesperado - talvez vida e tempo sejam mesmo o próprio inferno...
Os demônios que lá vivem somos nós, presos, e as escolhas são malditos caminhos que não mais fazem diferença, porque nunca sairemos do lugar. Os sonhos nem buscam uma mera existência, já que não há sono. E para aqueles que sonham até mesmo acordados, não há chance, só realidade...
Queimemos, pois, nessa maldita prisão! Assemos nas jaulas quentes de metal em fusão! Nunca disse que não merecemos... Há tempos o amor fez-se ódio e o carinho, desgosto. Não mais vale a pena "tentar" - não existe essa palavra. Por isso é tão fácil falar em "anjos": agora só existem os falsos; verdadeiros viraram cinzas - e de cinza tudo está cheio... Os espertos sobraram porque assim se fizeram, e de tão mal feitos acabaram com sua própria imagem.
Talvez a felicidade reinasse antes de tudo, talvez por isso choremos ao nascer.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Blé...
Simplesmente odeio palavras babacas de falso amor, ou até mesmo aquele amor babaca de falsas palavras. Estou cansado de ver uma felicidade momentânea de todos, um fingimento como se tudo estivesse perfeitamente ordenado - essa ordenação é impura e caótica; para ser mais exato, ela não existe.
Cansei-me das futilidades, do exibicionismo ridículo. As qualidades reais não são reveladas, apenas etiquetas, posses, e o pior: ignorância.
Enjoei-me de ouvir músicas inexpressivas, que sujam a cultura do país. Enjoei-me mais ainda daqueles que as ouvem, pouco se importando com a qualidade. Questão de gosto? Questão de bom senso.
Estou cansado das peruas de shopping, de saber da vida de famosos que não fizeram nada de importante para conquistar a fama, dos que manifestam opinião sem procurar entender, dos falsos religiosos.
Talvez eu esteja cansado por tudo estar como está, essa imensa porcaria. Ou também por tentar ser diferente e perceber que não dá certo...
Com raiva? Sim. E isso foi um desabafo antes de qualquer coisa.

sábado, 22 de agosto de 2009


Palavras malditas e agourentas são aquelas que disseste a mim e a todos os outros, tolos, mendigos dependentes de sua existência! Pois amanhã, as mesmas vestes que te cobrem a nudez, hão der servir como trapos para te esconder a vergonha!

Que meu ódio seja a causa de teu fracasso! Que o medo da decomposição seja deliberadamente arrancado das entranhas de minha alma! A morte, o mais belo e doce fim, há tempos ocorreu; o que me resta é ainda a carne. Mas não devo recordar o passado: que este seja abolido com todo o resto. Porém, todo o resto ainda me definha, torna-me mais um louco que alterna seu humor!

Eu sonhei. E por mais que em tenro sonho seus lábios me tocaram a face, não reclamo: acordei. E que dessa realidade seja a feita a minha vontade, pois do mais puro dos altruísmos surgiu o egoísmo.

E sem mais poder dizer, tocar, amar, eu apenas penso - e felizes são os alienados, pois estes não precisam pensar! Então, desgraço-me por inteiro, enveneno-me com o sentimento! Mas ainda invoco a razão, mesmo que no limiar do mais profundo dos poços. E lá, onde todos os sussurros ecoam como respostas de nós mesmos, eu grito: amei, por isso sofri; amei demais e por isso morri!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Escárnio

Usava a raiva como vis inertiae, tentando chegar ao esquecimento. Ridículo: aquela mente pífia não tinha controle sob circunstâncias um pouco mais incômodas - o que levou ao ocaso de sua personalidade. Real, irreal... Alternava-se em mútiplos contextos; inconstante par excellence. Era medíocre, porquanto não conseguiu obliterar simples e mínimas memórias.
Ele era...
Eu era; fui.
Perda de tempo, como quiser. Misto de loucura e aberração? Seja mesmo insânia e ódio, não muda em nada. Condições adversas faziam da minha vida a própria morte - nem isso, posto que morte é doce fim. Enfermidade se fez presente em todo o caminho... Aceito, apesar de reclamar: serviu para algo - resta descobrir qual a serventia.

Que fogo seria esse? Arde sem queimar; queima sem arder. Ora, em nossos peitos aprisiona-se a dor! E digo nossos, pois todos sofreram, sofrem e sofrerão. 
Clichê. Definitivamente, o inferno é a repetição. E de novo estou, nessa maldição cíclica: tornando-me igual, simétrico, meramente resto! Quem já não pensou nisso? Dissertou sobre? Montes... E nesse momento, verto-me em apenas mais um - acaba-se a prezada unicidade.

Não resta destino aos iguais; para esses, nada. Qual então o sentido, escopo de todas as coisas? Eu penso, logo enlouqueço. Existir ainda é a próxima etapa, ainda inantigida. 
Pois então...
Enlouqueçam!


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Revisão

Revisei grande parte dos meus textos, corrigindo erros ortográficos e mudando algumas "sutilezas". Nada radical foi alterado, a estrutura está a mesma. Já tinha lido várias vezes os textos, mas parece que quanto mais você lê, mais gostaria de corrigir. Desculpem por erros encontrados, espero que tudo (ou a maior parte) esteja correto.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Fotos

Eu fotografava: imortalizava fragmentos daquela noite escura e úmida. Estava frio, há pouco havia chovido; o asfalto molhado refletia em pontos brilhantes a luz artificial dos postes, enquanto a luz natural da lua era escondida por altos prédios que entornavam a rua. A fumaça subia dos bueiros e desaparecia no gélido ar, às vezes captada por minhas lentes.
Enquanto eu caminhava, solitário, meu sobretudo esvoaçava com as rajadas de vento. Era difícil acender o cigarro; para piorar tudo meu isqueiro ainda falhava. Conforme a noite avançava, o número de pessoas diminuía: já não era mais visto aquele tipo com maleta, cansado do trabalho, ou até mesmo mulheres carregadas de compras voltando para casa. Os carros também desapareciam lentamente na rua que era uma linha reta, aparentemente sem fim.
Era delicioso poder andar sem rumo, observar os seres que constituem o grande sistema caótico denominado sociedade. Analisar as diversas personalidades, atitudes, principalmente os olhares: enquadrar, focalizar e memorizar eternamente, com o simples aperto de um botão.
O tempo passou rapidamente, e já eram 3 da manhã quando avistei um letreiro em neon verde de uma lanchonete aberta 24 horas. Aproximei-me, e entrei: o ar era pesado, carregado de gordura assim como as hélices dos ventiladores que rodavam lentamente. O lugar estava iluminado por fortes luzes brancas, tornadas mais intensas pela cor clara dos pisos. As mesas, encostadas nas paredes e fixadas no chão, eram de um brilhante aço inoxidável. A atmosfera no geral não era muito agradável, parecia mais um matadouro. Não fazia diferença... Eu havia entrado apenas para tomar o cappuccino que acalentava minhas madrugadas.
Atrás do balcão, uma mulher lavava os pratos. Seu avental branco já estava amarelado; o cabelo loiro, desgrenhado. Suas olheiras demonstravam cansaço; poderia muito bem ser uma pobre quarentona fracassada, daquelas que moram em um apartamento alugado caindo aos pedaços com filhos para cuidar. Andei até o balcão e lá me sentei. Guardei minha câmera na bolsa, cuidadosamente, e ouvi:
- Posso ajudar? - disse a quarentona.
- Poderia me ver um cappuccino, por favor? - perguntei gentilmente.
Logo eu estava tomando meu café, e como sempre, observando. No geral, a lanchonete estava vazia como todo o resto da rua e da cidade, a não ser por um jovem casal de namorados sentados em uma mesa à esquerda, e um mendigo encostado em um canto, ao fundo. Os jovens conversavam alegremente, tomando milk-shakes e comendo hambúrgueres; a moça vestia um casaco de um time de futebol, provavelmente de seu companheiro. O mendigo dormia; estava sujo, com as roupas em frangalhos e os cabelos despenteados.
- Há quanto tempo aquele mendigo está ali? - Perguntei para a garçonete.
- Desde que chegou, há cerca de duas horas. Pediu comida para aqueles jovens que negaram. Fico com pena, mas meu emprego está em risco, não posso perdê-lo. - Confessou a empregada.
- Faça um hambúrguer e um suco pra ele, eu pago. - Afirmei.
Após alguns minutos, a garçonete acordou o mendigo e ofereceu-lhe o lanche. Ele comia rapidamente, sem se preocupar com boas maneiras ou com sujeira. Mastigava e engolia como um animal esfomeado, chamando a atenção dos adolescentes que negaram tal refeição. Aproveitei essa doce cena: tirei rapidamente a câmera da bolsa e fotografei, sempre discreto. Após terminar, o pobre homem voltou a recostar-se na parede, e lá ficou com os olhos fechados. A moça-do-casaco-de-futebol o olhava enojada, tratando-o mentalmente de uma forma inumana. Desviei o olhar e acendi meu cigarro; havia conseguido fazer funcionar o velho isqueiro.
Os jovens terminaram de comer e se levantaram; deixaram o dinheiro na mesa e foram até a rua, onde estava estacionado o carro. Acelerando de forma exibida, seguiram rapidamente por aquele caminho sem fim, deixando simplesmente de existir do "mini cosmo" da lanchonete.
Após terminar o café e o cigarro, também me levantei; paguei minha conta e a do mendigo, agradeci a atendente e a gratifiquei com uma gorjeta - certamente serviria para comprar algo para seus possíveis filhos. Dirigi-me até o pobre, tirei meu casaco e deixei ao seu lado: suas roupas eram finas, o sobretudo ajudaria a mantê-lo quente. Depois de uma última olhada no lugar, juntei minhas coisas e saí.
Minha noite estava ganha, tinha conseguido imagens que demonstravam o instinto humano. Além disso, consegui imagens que demonstravam a escória humana. É interessante como em simples olhares, os sentimentos revelam-se profundamente com a história de uns, e do egoísmo de outros...

sábado, 11 de abril de 2009

"Eu? Não jogue a culpa em mim! Ontem quando o abajur foi desligado, senti-me sozinho. Mas logo o dia chegou e não precisei mais dessas luzes artificiais... Quando eu caminhar na rua, pensarei. Pouco, digamos; quanto menos melhor. Contradição? Não, não... Só estou com medo do calor do Sol queimar-me sem eu ter a chance de perceber - tudo tem seu lado ruim.
Olha, melhor eu preparar logo esse café da manhã, preciso me alimentar de alguma forma, ao menos isso. Só que antes, poderia me ensinar a cozinhar? Droga, não me dou bem com essas coisas..."

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O que é justiça para você?


Eu ri. Gargalhei insanamente por incontáveis instantes de prazer e dor. Lá estava ela: seu corpo flácido, suavemente deitado na cama; os braços pendiam, os olhos verdes flutuavam nas órbitas, afogados por seu doce sangue que escorria também de seus lábios. Continuava linda; o tom de pele apenas mais alvo do que de costume. Seus loiros cabelos eram perfeitos: desciam ondulados por seus ombros de textura sedosa. Contudo, a beleza não é eterna, e logo a sua iria esvair-se tão rapidamente quanto à consideração por mim.
Era para esquecer? Pois bem. Deixei de dar valor, como assim foi feito comigo; a diferença é que para mim as coisas sem valor são sinônimas de mortas... Agora os vermes iriam devorá-la, tornariam sua carne fétida e pútrida, desfazendo-a lentamente, semelhante às lembranças minhas que agora se desfaziam.
Era ótimo; o gosto da vingança, tão sublime, subia e satisfazia-me. Eu poderia ter feito mais... Tê-la feito sofrer como sofri, sem chances de defesa, de escolha. Mas sua inexistência já era de bom grado.
Eu caminhava ao redor de seu corpo e a admirava, por mais uma vez, e pela última ela seria minha... Toquei suavemente sua gélida pele, fechei as pálpebras dos olhos que tanto amei e limpei sua boca já arroxeada. Suas vestes eram brancas; um comprido vestido de renda, agora sem qualquer utilidade.
Não era necessário enterro; meu sentimento não havia sido dignamente enterrado. O corpo que definhasse por ali mesmo...
O conceito de justiça tinha sido drasticamente alterado, ou melhor, inadmissivelmente alterado. Machucar alguém e viver sem qualquer remorso, sem dar tempo de cura para as feridas, era cruel. Fui cruel ao matá-la, entretanto fui justo.
Dessa vez, nada de equilibrar-me no limite da loucura; ou enlouquecia de vez, ou melhorava. Estava feito. Não me preocupei com pesadelos, pois os tinha há tempos. Acostumei-me às tormentas noturnas como alguém se acostuma à água fria após algum tempo em contato com ela - e que morre de hipotermia...
Era melhor assim; desejá-la e ter a absoluta certeza de que não é possível tê-la mais. Lembrar de sua vida e agora saber que está morta, que não mais sonha e sente...
Deixei a sala. Como último adeus, encostei meus lábios em sua testa e senti frio. O frio da eterna solidão; aquele que só pode ser sentido quando não se vive mais, o frio que também sempre senti.
Caminhei vagarosamente até a porta. Nesse curto percurso, deparei-me com uma incrível certeza: a de que eu voltaria, incessantemente, todos os dias, para vê-la e lamentar a saudade. Então busquei um galão de gasolina que sobrava no carro, embebi seu corpo; encharquei seu lindo vestido e seus cabelos. Com o cigarro que em minha boca estava, ateei fogo. Peguei o que me matava, e usei para acabar com o que já tinha me matado. Suas cinzas sumiriam no ar, junto com a fumaça do fogo que um dia foi amor...