segunda-feira, 6 de abril de 2009

O que é justiça para você?


Eu ri. Gargalhei insanamente por incontáveis instantes de prazer e dor. Lá estava ela: seu corpo flácido, suavemente deitado na cama; os braços pendiam, os olhos verdes flutuavam nas órbitas, afogados por seu doce sangue que escorria também de seus lábios. Continuava linda; o tom de pele apenas mais alvo do que de costume. Seus loiros cabelos eram perfeitos: desciam ondulados por seus ombros de textura sedosa. Contudo, a beleza não é eterna, e logo a sua iria esvair-se tão rapidamente quanto à consideração por mim.
Era para esquecer? Pois bem. Deixei de dar valor, como assim foi feito comigo; a diferença é que para mim as coisas sem valor são sinônimas de mortas... Agora os vermes iriam devorá-la, tornariam sua carne fétida e pútrida, desfazendo-a lentamente, semelhante às lembranças minhas que agora se desfaziam.
Era ótimo; o gosto da vingança, tão sublime, subia e satisfazia-me. Eu poderia ter feito mais... Tê-la feito sofrer como sofri, sem chances de defesa, de escolha. Mas sua inexistência já era de bom grado.
Eu caminhava ao redor de seu corpo e a admirava, por mais uma vez, e pela última ela seria minha... Toquei suavemente sua gélida pele, fechei as pálpebras dos olhos que tanto amei e limpei sua boca já arroxeada. Suas vestes eram brancas; um comprido vestido de renda, agora sem qualquer utilidade.
Não era necessário enterro; meu sentimento não havia sido dignamente enterrado. O corpo que definhasse por ali mesmo...
O conceito de justiça tinha sido drasticamente alterado, ou melhor, inadmissivelmente alterado. Machucar alguém e viver sem qualquer remorso, sem dar tempo de cura para as feridas, era cruel. Fui cruel ao matá-la, entretanto fui justo.
Dessa vez, nada de equilibrar-me no limite da loucura; ou enlouquecia de vez, ou melhorava. Estava feito. Não me preocupei com pesadelos, pois os tinha há tempos. Acostumei-me às tormentas noturnas como alguém se acostuma à água fria após algum tempo em contato com ela - e que morre de hipotermia...
Era melhor assim; desejá-la e ter a absoluta certeza de que não é possível tê-la mais. Lembrar de sua vida e agora saber que está morta, que não mais sonha e sente...
Deixei a sala. Como último adeus, encostei meus lábios em sua testa e senti frio. O frio da eterna solidão; aquele que só pode ser sentido quando não se vive mais, o frio que também sempre senti.
Caminhei vagarosamente até a porta. Nesse curto percurso, deparei-me com uma incrível certeza: a de que eu voltaria, incessantemente, todos os dias, para vê-la e lamentar a saudade. Então busquei um galão de gasolina que sobrava no carro, embebi seu corpo; encharquei seu lindo vestido e seus cabelos. Com o cigarro que em minha boca estava, ateei fogo. Peguei o que me matava, e usei para acabar com o que já tinha me matado. Suas cinzas sumiriam no ar, junto com a fumaça do fogo que um dia foi amor...

1 comentários:

Bia :) disse...

SUMEMO LESK, ARREBENTA!
eauhaeoiuaehiuaehoiuaehoiuae Não...de verdade, ficou muito bom, espero que dessa vez esse fato textual se CONSUME DE VERDADE EM.
Beijos das sua admiradora /o/

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