Vozes ecoavam em sua mente, visões de vultos amedrontavam seu espírito. Estava sozinha. Seu maior medo era a loucura, e temia já ter chegado a esse ponto. Rastejava nas ruas escuras; as poucas luzes criavam sombras bruxuleantes sobre o asfalto úmido de uma noite chuvosa. Suas vestes, sujas por lágrimas de sangue que vertiam de seus olhos, colavam-se em seu corpo trêmulo. O vestido branco, tornara-se negro, assim como sua mente. Vagava sem saber para onde ir. Suas mãos apertavam sua cabeça, como que para arrancar as lembranças, e desgrenhavam seu cabelo molhado da chuva. Balbuciava algumas ininteligíveis palavras para alguém além daquela triste madrugada.
Lembrava-se de cenas de sua vida, de seu amor. O que havia feito? O arrependimento caminhava inquieto, apunhalava seu peito impiedosamente. E ao mesmo tempo uma satisfação a fazia rir insanamente, com um gosto dolorido de vingança. "Ao menos ele pagara pelo que fizera" pensava ela.
Porém sua imagem a incomodava. A imagem do corpo morto, gélido, flácido com um olhar etéreo. A faca estava fincada bem no coração. Como conseguira ser tão cruel? Não importava, estava feito: o matara, no dia do casamento.
Precisava de seu calmante, tremia mais e mais. Nunca imaginou que seus problemas mentais aparentemente simples pudessem levar a uma atitude tão radical. Muito menos que teria frieza o suficiente para roubar a vida de alguém, dessa forma, sem chances de defesa.
Esfriava. A noite passava lentamente, torturante. Gemidos de dor ela ouvia. Vivenciava o passado como se fosse o presente. Não havia solução. A dor não passava, nem dava sinais de que passaria. Havia enlouquecido, agora tinha essa certeza. E no meio de tantas lembranças doloridas, surgiu uma imagem tranquilizante: a lagoa. Passaria a eternidade lá, e assim foi. Lembrou-se do caminho que há anos não percorria. Ia lá quando criança, jogar pedras na água, ver a paisagem, liberar mágoas que começavam na ingenuidade de sua infância. Mas nesse dia essa lagoa teria outra finalidade.
Quando chegou, entrou lentamente na água coberta por uma espessa camada de névoa: fantasmas que davam boas-vindas. Suas malditas lembranças seriam lavadas, assim como sua existência. Seus pecados, purificados em um novo batizado para seu fim. Caminhou até o fundo e mais fundo, segurando as rosas brancas restantes de seu buquê: eram lindas, puras, um contraste com sua alma? Rosas que flutuaram durante dias na lagoa, como que para embelezar o funeral da noiva atormentada.

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