sábado, 14 de março de 2009

Marcas da Vingança

There were red roses or white roses dyed in blood?

Vozes ecoavam em sua mente, visões de vultos amedrontavam seu espírito. Estava sozinha. Seu maior medo era a loucura, e temia já ter chegado a esse ponto. Rastejava nas ruas escuras; as poucas luzes criavam sombras bruxuleantes sobre o asfalto úmido de uma noite chuvosa. Suas vestes, sujas por lágrimas de sangue que vertiam de seus olhos, colavam-se em seu corpo trêmulo. O vestido branco, tornara-se negro, assim como sua mente. Vagava sem saber para onde ir. Suas mãos apertavam sua cabeça, como que para arrancar as lembranças, e desgrenhavam seu cabelo molhado da chuva. Balbuciava algumas ininteligíveis palavras para alguém além daquela triste madrugada.
Lembrava-se de cenas de sua vida, de seu amor. O que havia feito? O arrependimento caminhava inquieto, apunhalava seu peito impiedosamente. E ao mesmo tempo uma satisfação a fazia rir insanamente, com um gosto dolorido de vingança. "Ao menos ele pagara pelo que fizera" pensava ela.
Porém sua imagem a incomodava. A imagem do corpo morto, gélido, flácido com um olhar etéreo. A faca estava fincada bem no coração. Como conseguira ser tão cruel? Não importava, estava feito: o matara, no dia do casamento.
Precisava de seu calmante, tremia mais e mais. Nunca imaginou que seus problemas mentais aparentemente simples pudessem levar a uma atitude tão radical. Muito menos que teria frieza o suficiente para roubar a vida de alguém, dessa forma, sem chances de defesa.
Esfriava. A noite passava lentamente, torturante. Gemidos de dor ela ouvia. Vivenciava o passado como se fosse o presente. Não havia solução. A dor não passava, nem dava sinais de que passaria. Havia enlouquecido, agora tinha essa certeza. E no meio de tantas lembranças doloridas, surgiu uma imagem tranquilizante: a lagoa. Passaria a eternidade lá, e assim foi. Lembrou-se do caminho que há anos não percorria. Ia lá quando criança, jogar pedras na água, ver a paisagem, liberar mágoas que começavam na ingenuidade de sua infância. Mas nesse dia essa lagoa teria outra finalidade.
Quando chegou, entrou lentamente na água coberta por uma espessa camada de névoa: fantasmas que davam boas-vindas. Suas malditas lembranças seriam lavadas, assim como sua existência. Seus pecados, purificados em um novo batizado para seu fim. Caminhou até o fundo e mais fundo, segurando as rosas brancas restantes de seu buquê: eram lindas, puras, um contraste com sua alma? Rosas que flutuaram durante dias na lagoa, como que para embelezar o funeral da noiva atormentada.





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