Estava acordado. Olhando no espelho, vi o rosto de alguém cansado. Meus olhos fundos e minha barba por fazer insinuavam que o tempo passava para mim. Percebi que ele devorava-me ferozmente, destruía meu corpo, enfeava-me ainda mais; inexorável, impiedoso.
Mas assim como era arruinado fisicamente, minha mentalidade crescia em igual proporção. As idéias surgiam mais, os sonhos concretizavam-se em um universo completamente fantasioso, onde o tempo inexistia.
Nesse meu universo eu buscava viver. Permanecia absorto em minha imaginação para escapar da realidade. Era o meu refúgio, minha solidão, talvez meu alter ego onde não havia o impossível. Nele eu descansava, dormia, fechava os olhos e tinha os sentidos roubados.
Quando realmente necessitava acordar, escondia-me através das sombras de um mundo onde nem luz havia, onde a vida era simplificada, resumida em uma existência qualquer; constante, simétrica, sem graça. Porém tirava proveito para amadurecer e alimentar meu interior: sacrificava meu corpo com a passagem do tempo apenas para enriquecer as ideias e alimentar meu universo.
Entretanto, mesmo sonhando, meu físico ainda envelhecia e deteriorava-se, e nada podia ser feito. Eu ainda estava lá, acordado, olhando no espelho, enxergando meu reflexo e pensando. Logo eu desapareceria e tudo o que criei seria destruído, arruinado por um simples capricho da única coisa que é certa. Então me expressei: escrevi, desenhei, pintei o que há tempos estava aprisionado em meu ser. Deixei o egoísmo de lado; o mundo sem luz precisava de no mínimo uma chama para que pudesse acender outras velas.
Assim foi. Sumi, ninguém percebeu. Como disse, a existência pouco importava. Meu universo cresceu, e já se colidia com a realidade. As ideias permaneceram, e foram as únicas coisas que resistiram ao tempo.

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